FUNDAÇÃO MALCOLM LOWRY

FUNDAÇÃO MALCOLM LOWRY

Este blogue foi criado com o intuito de unir a comunidade lowryana de todo o mundo, a fim de trocar ideias e informação sobre o autor, promover a organização de conferências, colóquios e outras actividades relacionadas com a promoção da sua obra. Este é o primeiro sítio trilingue feito no México sobre o tema. Cuernavaca, México.


Malcolm Lowry Foundation


This blog was created to comunicate all lowry scholars, fans and enthusiastics from around the world in order to promote the interchange of materials and information about the writer as well as organize events such as lectures, colloquiums and other activities related to the work of the author. Cuernavaca, Mexico.


FONDATION MALCOLM LOWRY

Ce blog a été crée dans le but de rapprocher la communauté lowryenne du monde entier afin de pouvoir échanger des idées et des informations sur l'auteur ainsi que promouvoir et organiser des conférences, colloques et autres activités en relation avec son oeuvre. Cuernavaca, Morelos, Mexique.

martes, 17 de mayo de 2011

Artículo de Manuel Poppe

Sobre Malcolm Lowry (1909-1957)


1. Julien Gracq, escritor francês cujo destino se cumpriu honestamente -à margem da bolsa das vaidades- denunciou a doença da literatura: “nivelamento por baixo, subserviência progressiva do espírito, desorientação do público, que identifica o autor-vedeta com as marcas comerciais. O mediático inventa e impõe o zero cultural”. Assim é: transformada em “produto” a obra literária vale o dinheiro que rende. Os críticos transmudaram-se em fiéis de armazém. Acabaram os escritores, triunfam os escribas. É a época do mercado e da aparência. Quando a editora Relógio de Água publica Lowry, alegram-se os que não ignoram tratar-se de um autor extraordinário e ser “Debaixo do Vulcão” uma obra-prima. Festeja-se um acto de coragem: livros desses não cabem no comercio reinante: o da pseudo-arte.


2. Clarence Malcolm Lowry nasceu em 1909 (New Brighton, Liverpool) e morreu em 1957, em Ripe, na costa sul de Inglaterra, vítima de um cocktail de whisky e sedativos, na véspera de fazer 48 anos. Um alcoólico, desde a adolescência (desde os 14 anos, nota Gordon Bowker, na biografia, “Pursued by the furies”, St. Martins Press, N-Y, 1997). A primeira mulher, Janine van der Heim (jovem aprendiz de escritora de 22 anos, que assinava Jan Gabrial) descreve-o tal qual o conheceu em Granada (1933): “uma estranha mistura de idealismo e bicho da terra”. O sonho e o insaciável amor às coisas deste mundo e o desejo de as possuir e compreender levá-lo-iam à paixão e ao desastre –a um destino de nómada: todos os lugares lhe foram passageiros. Cedo saiu de casa dos seus pais. Viajou, obstinada e inevitavelmente. A China, o México, Nova-Iorque, o Canadá representaram etapas indispensáveis à feitura de um dos mais ricos, profundos, trágicos, poéticos romances do século XX. O seu alcoolismo visionário, a insatisfação, a inconsciência (inocência?), a busca desesperada do sentido da vida tornaram-no insuportável. Jan aguentou quatro anos. A segunda mulher, Margerie Bonner, ex-actriz divorciada e mais velha do que ele, conseguiu acompanhá-lo de 1939 até à morte. A que preço? Lowry conheceu a prisão, a deportação, os hospitais, a miséria. Não era um amante fácil.


3. Deixou escassa bibliografia. A sua obra será, talvez, uma só: “Debaixo do Vulcão”, escrito e rescrito quatro vezes, pago com suor e ressacas, fabulosa epopeia d’alma, condenada ao silêncio. Não se trata da autobiografia de um bêbedo; representa, genialmente, o grito do Homem, que interpela os deuses emboscados.


4. Geoffrey Firmin -o Cônsul de “Debaixo do Vulcão”-, numa das passagens dolorosas e intensas, reconhece que “ele próprio está no Inferno”; que o Inferno está dentro dele e o possui. Em casa de Laruelle (ex-amante da sua mulher), entre os desenhos de Orozco, pintor do patético e do trágico”, e as telas violentas de Diego Rivera, evocativas da gorada epopeia revolucionária mexicana, pressente, além do fio da navalha, “o instante de Deus”: o momento em que o perdão salvará o mundo. Mas é demasiado tarde. Perdoar a quem? A Yvonne (“o meu perdão nunca será suficientemente profundo”)? À absurdeza da vida? Ao consentimento de Deus, que não impede ao demónio desvairar os homens? Coração ferido não tem perdão, e ele irá continuar a procurar, na tequilla e no mescal, a fuga –ou a lucidez reveladora. “De que serve fugirmos de nós próprios?” E, sozinho, sofre o delírio do mundo. E cita Baudelaire: “Os deuses existem: são o diabo”. Pesa-lhe “a obscura região morta” e busca a saída, no calvário redentor.


5. Lowry fala de Hitler, da Guerra de Espanha, do drama mexicano, de Orozco e Rivera, artistas que denunciam o escândalo social. Fala de Yvonne. “Debaixo do Vulcão” é o romance do amor traído? Sim, mas dum amor total: à vida, ao universo indecifrável e arrebatador. Yvonne foi o mensageiro que falhou. O que aguilhoa e sangra o Cônsul é a traição de todos a tudo e de cada um a si próprio. Haverá, ainda, nesse martirizado, alguma esperança? Do fundo do poço, o Cônsul clama: “luto pela sobrevivência da sensibilidade humana”. No seu livro, reencontramos Dostoievski: a complexidade e a religiosidade torturada. Geoffrey Firmin aponta iniquidades, perversidades e monstruosidades sociais –e a misteriosa (muda) harmonia do infinito. Nenhuma contradição: o sentido religioso é o sentido da justiça social.


6. “Meu Deus!, se a nossa civilização saísse da bebedeira e, durante dois dias, abrisse olhos, ao terceiro morria de remorsos”, diz Hugh, irmão de Geoffrey e outro alter-ego de Lowry. O Cônsul, a viver as suas últimas doze horas, pensava o mesmo. O alucinado (o nigromante), o decadente (o imaculado) tinha os pés bem assentes na terra, onde lia sinais de um mítico Éden e lhe acontecia partilhar o quotidiano prostituído. A alma ardia-lhe. Lowry escolheu o limite do risco. Mas, se tudo aponta para o suicídio, a verdade é que as razões da sua morte permanecem obscuras. Margerie Bonner, última companheira, disse tratar-se de um descuido. Essa versão oficiosa não convenceu ninguém.


Manuel Poppe
Publicado na Página de Cultura de Jornal de Notícias, de 10 e 17 de Feveriero de 2008






Acerca de Malcolm Lowry (1909-1957)

1. Julien Gracq, escritor francés cuyo destino se cumplió honestamente —más allá de la bolsa de las vanidades— denunció las dolencias de la literatura: “nivelación a la baja, espíritu de sumisión progresiva, desorientación de la opinión pública que identifica al autor vedet con las marcas comerciales. Los medios de comunicación inventan o imponen la cultura cero”. Así se transforma en “producto” la obra literaria que vale el dinero que gana. Los críticos se transforman en fieles de las grandes tiendas. Desaparecen los escritores y los escribanos triunfan. Es el tiempo del mercado y la apariencia. Cuando la editorial Relógio de Água publica a Lowry, se regocijan los que no ignoran que se trata de un autor extraordinario y que “Bajo el volcán” es una obra maestra. Se celebra así un acto de valentía: libros como ese no caben en el comercio imperante o de pseudo-arte.

2. Clarence Malcolm Lowry nació en 1909 (New Brighton, Liverpool) y murió en 1957 en Ripe, en la costa sur de Inglaterra, víctima de un cocktail de whisky y sedantes, poco antes de cumplir 48 años. Un alcohólico desde su adolescencia (desde los 14 años, hace notar Gordon Bowker en la biografía “Pursued by the furies”, St. Martins Press, N-Y, 1997). Su primera esposa, Janine van der Heim (joven aprendiz de escritora que firmaba Jan Gabrial) lo describe tal cual lo conoció en Granada (1933): “una extraña mezcla de idealismo y de animal de tierra”. Los sueños, el insaciable amor a las cosas de este mundo y el deseo de poseerlas y comprenderlas lo llevarían a la pasión y al desastre, a un destino de nómada: todos los lugares le serán pasajeros. Pronto salió de casa de sus padres. Viajó, obstinada e inevitablemente. China, México, Nueva York, Canadá representarán etapas indispensables para la realización de uno de los más ricos, profundos, trágicos y poéticos romances del siglo XX. Su alcoholismo visionario, su insatisfacción, su inconsciencia (¿inocencia?), se volverán insoportables. Jan aguantó cuatro años. Su segunda esposa, Margerie Bonner, ex actriz divorciada y mayor que él, consiguió acompañarlo hasta su muerte en 1939. ¿A qué precio? Lowry sabía de la cárcel, la deportación, los hospitales, la pobreza. No era un amante fácil.

3. Dejó escasa bibliografía. Su obra será, tal vez, una sola: “Bajo el volcán”, escrito y reescrito cuatro veces, pagado con sudor y resacas, fabulosa epopeya del alma, condenada al silencio. No se trata de la autobiografía de un borracho, representa, genialmente, el grito del hombre que interpela a los dioses emboscados.

4. Geoffrey Firmin —el Cónsul de “Bajo el volcán” — en uno de los pasajes dolorosos e intensos, reconoce que “está en el infierno” y que el infierno está dentro de él. En casa de Laruelle —ex amante de su esposa— entre los cuadros de Orozco, pintor de lo patético y lo trágico, y las pinturas de Diego Rivera que recuerda la frustrada epopeya de la Revolución Mexicana, se hace presente, en el filo de la navaja, “el momento de Dios”, el instante en el que el perdón podrá salvar al mundo. Pero es demasiado tarde y ¿a quién hay que perdonar? ¿A Yvonne (“mi perdón nunca será suficientemente profundo”) ¿A las desatinos de la vida? ¿Al consentimiento de Dios que no impide al demonio hacer desvariar a los hombres? El corazón herido no tiene perdón y él seguirá buscando, en el mezcal o el tequila, la evasión o la lucidez reveladora. “¿De qué sirve huir de nosotros mismos?” Sufre el delirio del mundo y cita a Baudelaire: “Los dioses existen, son el demonio”. Le pesa la “oscura región muerta” y busca la salida en el calvario redentor.

5. Lowry habla de Hitler, de la guerra de España, del drama mexicano, de Orozco y Rivera, artistas que denuncian el escándalo social. Habla de Yvonne. ¿“Bajo el volcán” es un romance sobre la traición del amor? Sí, pero de un amor total a la vida, al universo indescifrable y asombroso. Yvonne fue un mensajero que falló. Lo que aguijona al Cónsul es la traición de todos a todo y de cada uno a sí mismo. ¿Habrá, todavía, en este suplicio, alguna esperanza? En el fondo del pozo, el Cónsul clama: “Duelo por la sobrevivencia de la sensibilidad humana”. En su libro reencontramos a Dostoievsky: la complejidad y la religiosidad torturada. Geoffrey Firmin apunta inequidades, perversidades y monstruosidades sociales, dentro de una misteriosa (muda) armonía del infinito. Ninguna contradicción: el sentido religioso y el sentido de justicia social.

6. “Dios mío, si nuestra civilización saliera de la embriaguez y, durante dos días, abriese los ojos, al tercero moriría de remordimientos” dice Hugh, hermano de Geoffrey y otro alter ego de Lowry. El Cónsul, viviendo sus doce últimas horas, pensaba lo mismo. El loco (el mago), el decadente (el alucinado) tenía los pies bien firmes en la tierra donde lee los signos de un mítico Edén y le parecía compartir lo cotidiano prostituido. Le ardía el alma. Lowry optó por el límite del riesgo. Pero, a pesar de que todo apunta hacia el suicidio, la verdad es que las razones de su muerte permanecen oscuras. Margerie Bonner, su última compañera, dice que se trata de un descuido. Esa versión oficiosa no convence a nadie.

Manuel Poppe
Publicado en el suplemento cultura de Jornal de Notícias, en Febrero de 2008
Traducción de Félix García

1 comentario:

MJ FALCÃO dijo...

Me gusta Malcolm Lowry! L'artigo es muy bien...